TEXTOS

2017 - Texto exposição "Tempo, da contenção à expansão" - CCJF - Isabel Sanson Portella


Tempo, da contenção à expansão Colhi um ninho no esqueleto da hera. Um ninho suave de musgo campestre e de erva de sonho. YvanGoll, Tombeau Du Père. Myriam Glatt traz, num clima de bom humor e surpresa, obras que resgatam memórias e algumas referências à história da arte. Com pintura a artista coloca o foco nas sementes de girassol. É tempo de plantar, ver germinar e colher. É tempo de contenção e de espera. De aguardar a expansão, a multiplicação. Outro elemento que se repete nos trabalhos é a figura da mulher.Alimentando pássaros com as sementes ou em outro momento, segurando as flores que são dela e de Van Gogh, a mulher ocupa o espaço central da obra. Sentada no sofá de tons vibrantes que vão do vermelho ao arroxeado, ela é a protagonista. Lugar confortável e de recolhimento, o sofá remete ao ninho acolhedor, onde as aves encontram alimento e proteção. E das sementes nasceram as flores. É tempo da expansão, da exuberância dos tons quentes onde predomina a força dos amarelos. Myriam, em pinceladas ágeis e vigorosas, traz toda a beleza dos girassóis, flores tantas vezes reproduzidas ao longo da história da arte. Nosso olhar se perde em meio às sementes espalhadas, escuras, monocromáticas, e se amplia com o surgir da claridade e da cor. Um ciclo se fecha iniciando outro. Se Myriam Glatt utiliza diversas linguagens artísticas, é certamente na pintura que ela coloca toda sua emoção. Na série Tempo, da contenção à expansão, pintura e desenho se misturam num mesmo espaço pictórico. A cor, constantemente em destaque, pode ser considerada um elemento primordial em seus trabalhos. É tempo de expansão na obra da artista, que revela maturidade e parte para a conquista da liberdade de expressão, sempre tão almejada. Isabel Sanson Portella




2017 - Texto série de Auto Retrato "Sofá" - Isabel Sanson Portella


O SOFÁ

Colhi um ninho no esqueleto da hera

Um ninho suave de musgo campestre

e de erva de sonho. Yvan Goll,

Tombeau Du Père.

Myriam Glatt traz, num clima de bom humor e surpresa, obras que resgatam memórias e algumas referências à história da arte. Com colagens, desenho, pintura e fotografia a artista coloca o foco no sofá, imagem que remete ao ninho, ao lugar de recolhimento. Embora o sofá seja uma peça do ambiente social da casa e compartilhado por todos, deve, certamente, ser acolhedor e convidativo. Mais do que a mulher, figura central em quase todas as obras, é o sofá que desperta nosso olhar. Para ele Myriam escolheu cores vibrantes com tonalidades avermelhadas e arroxeadas. As almofadas sugerem conforto e maciez embora a mulher esteja sempre sentada em posição rígida, de pernas cruzadas, braços flexionados.

Outros elementos, que se sucedem nos trabalhos, são os pássaros e as sementes em bacias, germinadas ou espalhadas pelo chão e paredes. Sementes de girassol que alimentam, como a mulher que amamenta os pássaros. A ideia da mulher nutriz, sentada ao sofá, reforça a imagem do ninho seguro, lugar de crescimento e vida. E numa tela bastante expressiva vemos o vaso de girassóis. Das sementes nasceram as flores. Um ciclo se fecha iniciando outro, com o Vaso de Girassóis, de Van Gogh.

Se Myriam Glatt utiliza diversas linguagens artísticas, é certamente na pintura que ela coloca toda sua emoção. Na série O Sofá, pintura e desenho se misturam num mesmo espaço pictórico. A cor, sempre em destaque, pode ser considerada um elemento primordial em suas obras. O Sofá será certamente um marco na sua produção, revelando maturidade e conquistando a liberdade de expressão sempre tão almejada.

Isabel Sanson Portella




2016 - Texto exposição "Semente" - Galeria Öko - Mario Gioia


LabFab Em tempos de incertezas vivas, artes visuais e biologia parecem estar vivendo indissociavelmente. Para Semente, individual de Myriam Glatt neste 2016, a artista carioca amplia pesquisa já exibida na individual anterior, Coletivos, de 2015, e tem no elemento que dá título à exposição a molamestra do seu pensamento de agora. É numa fina linha que serve de eixo poético em sua produção que Myriam transita, não sem riscos. Ela continua com a representação repetitiva, obsessiva, serial de pinturas anteriores, bastante numerosas, centrando o seu foco hoje nas sementes. Mas por que tal elemento? É muito claro que existem simbologias nisso: a semente trazendo à tona a manutenção da vida, a disseminação algo sem controle de algo que irá eclodir, alterar-se, transformar-se, além de ser uma metáfora evidente da relevância dos fluxos, dos deslocamentos e do caráter movediço tão característicos da contemporaneidade. “No excesso quase compulsivo da unidade, o plural germina nas mais diversas formas”, resume ela sobre a nova fase. Outro dado presente em Semente é como vem a ideia do íntimo, do que é contido, daquilo que se protege do mundo. Há carapaças variadas nesse sentido, e o filósofo alemão Peter Sloterdijk analisa com brilho tal atributo do comportamento humano em Esferas. Bastante resumidamente, o teórico nos lembra da nossa condição uterina, envolvida, que vai se transmutando com o tempo. O Estado, a nação, num outro modelo, seria outro elemento a encapsular nossa condição, e viveríamos sempre em busca de bolhas para funcionar como zona de conforto, até nos depararmos com outro universo similar, nos relacionarmos e avançarmos novamente, em movimentos complexos. E na 32a Bienal de São Paulo, por exemplo, os lituanos Nomeda e Gediminas Urbonas montam um perturbador laboratório com a obra Psychotropic House: Zooetics Pavilion of Ballardian Technologies, em que o fundamento das relações que se desdobram no ambiente são os micélios, fungos que reagem na absorção de nutrientes, oxigênio e energia. Nesta exposição, Myriam deixará durante o transcorrer da mostra vasos em que sementes germinarão. Imagina-se que tudo vai se desenrolar harmonicamente, mas o fato é que o resultado do experimento não pode ser completamente controlado. Assim, a artista desdobra pontas deixadas por práticas famosas de arte e vida no contemporâneo nacional, paradigmáticas com o neoconcretismo, por exemplo. Além das pinturas e dos objetos-vasos, Myriam apresenta tridimensionais feitos com papelão. Uma ideia de reciclagem obviamente vem à cabeça, mas a artista prefere destacar o conceito de que a matéria-base desses trabalhos é originária do reino vegetal – as árvores que, após o processamento industrial, dão origem a um material hoje visto até como antiecológico (por isso a importância da sua reutilização, ainda mais quando boa parte dele vira mero descarte). Relevos são sobrepostos e obviamente enfatizam a repetição etc. De todo modo, o que move as investigações, procedimentos e estratégias de Myriam Glatt parece ser o mais interessante, essa indagação ruidosa e estranha que faz emergir – hoje por meio de pinturas, objetos e tridimensionais, o que sera amanhã? – produtos visuais que intrigam, em que o âmbito processual descortina, em especial, questionamentos cheios de vida. Mario Gioia, outubro de 2016




2016 - Texto colagens e os relevos - Myriam Glatt


Destruir, apagar, pintar por cima, cortar, colar, parece fazer parte das ações de um pintor contemporâneo. Nas colagens parto de um pensamento inicial de destruição onde o objeto a ser destruído é a tela pintada, e a partir desses cortes penso numa nova construção pictórica. Enquanto que nas minhas pinturas a repetição do mesmo se dá na ocupação da tela, como vemos nas séries sementes, nuvens, flores, ou círculos, nas colagens a repetição se transforma em acúmulo, formando novos diálogos onde os diferentes cortes vindos de diferentes pinturas se juntam a novas pinturas; como vemos na série colagens. Eu já havia experimentado colagens na série pinturas paralelas, mas numa construção muito ordenada. Agora as colagens são construídas com uma formação caótica desordenada, a partir de um olhar na desorganização aparente de uma floresta. Me interesso pela matéria, pelo tecido cortado, pela linha, pela borda do suporte, que se fazem a mostra, revelando a sua verdade. O tempo que é invisível se revela na colagem, quando, da arqueologia das telas escolhidas, o espaço temporal da ação cortar\colar se aproxima da pintura originária. O passado que se cola ao presente. Nos relevos, a vontade de ir para o espaço se concretiza mais ainda. Não como a escultura do passado sobre um pedestal, mas ainda um volume que depende de um suporte para se apoiar, no caso, a parede. Também com a ação corta/cola, a forma ou contorno do corte das peças de papelão são extraídas do meu olhar nos detalhes da série pinturas Flores. Trabalho que olha e trás a presença do outro e nessa ação autoreflexiva, a repetição e o acúmulo voltam a acontecer no meu processo. Uso caixas de papelão, jogadas pela cidade, como suporte de uma pintura que é escultura ou escultura que é pintura. Nesse paradoxo da falta de definição, que poderia ser uma crise, hoje é aceita como obra híbrida não precisando se fechar em nenhuma categoria do passado, sendo apenas relevos. Myriam Glatt, 2016




2015 - Texto exposição "Coletivos, manchas e contornos" - Galeria TAC - Mario Gioia


Textos do curador Mario Gioia sobre a exposição Coletivos 2015 Ao ver desdobradas e colocadas ao chão dezenas de pinturas no ateliê de Myriam Glatt, a primeira coisa que me veio à cabeça, dadas as sucessivas repetições de motivos como nuvens, pedras, homens, flores, foi uma série de obras-primas, obsessivas, de Yayoi Kusama. Entre o final dos anos 50 e o início da década posterior, a artista japonesa realizou telas de grande escala, com minima variação de cores, como Infinity Nets (White), de 1959, Pacific Ocean, de 1960, e Dot Abstraction (1958-60), num período em que acabara de chegar aos EUA. As Infinity Net Paintings antecipam procedimentos de nomes-chave da arte conceitual e do minimalismo, porém foram reconhecidas como de grande valor havia relativamente pouco tempo atrás, com o prestígio da artista no meio agora efetivamente se consolidando - até numa chave mais popular. Exemplo disso foi a retrospectiva de Kusama que passou pelo Brasil em 2014, gerando uma mídia para além dos ininterruptos selfies que povoaram à exaustão as redes sociais à época. Outro dado que me veio foi a dificuldade do circuito, nos mais diversos âmbitos, em compreender e ler com atenção poéticas mais orgânicas, menos conceituais, mais intuitivas. É esclarecedor, nesse ponto, perceber que mulheres artistas que enveredaram por caminhos menos óbvios, mais crispados, por vezes ganham reconhecimento tardio. Podemos citar o caso da austríaca Maria Lassnig, Leão de Ouro em Veneza na edição de 2013, e da norte-americana Lynda Benglis, hoje com 73 anos. Coletivos, é a primeira individual de Myriam, e traz um panorama sobre sua abundante produção em pintura, além de alguns tridimensionais e desenhos. Numa visada rápida sobre o recorte, pode se destacar a repetição como uma das molas mestras de sua produção, com contornos muito pertinazes. Um dos conjuntos que deve ser realçado é o de nuvens, que possui evidentes elos com a tradição da história da arte. Podemos passear pelo barroco e pelo romantismo, por exemplo, e, ao mesmo tempo, com todas as telas ladeadas umas às outras - em fundo negro, com azul frisado, mais verticais ou horizontais etc - , contemplamos a simultaneidade algo desorientadora do contemporâneo. As flores também propiciam outro bom momento em Coletivos. Com cada um dos trabalhos recebendo título de uma mulher e mesclando técnicas diferentes num mesmo chassi, Myriam ironiza de certa maneira a adequação do que é realizado na pintura. Afinal, por que retratar/representar/escolher flores? Por ser uma artista que lida com o ‘feminino’? As respostas não são definitivas nem assertivas e ajudam a embaralhar análises que passam longe do linear. Por exemplo, as pinturas que elegem bananas como foco, e novamente com essa acumulação de imagens iguais, também ajudam a inquietar o tom geral. A habilidade da artista pode fazer com que o observador perceba as sutis diferenças, como no mundo real, e faça questionamentos sobre o particular e o coletivo, o privado e o público, o específico e o geral etc. Ao mesmo tempo, podemos pensar, a ação de praticar repetidamente o mesmo tema não deixa de atestar um esforço repetitivo, manual e técnico da artista, quase como em um ato que guarda contatos com a performance. E, em tempos algo obscuros no campo politico, tal fruta disposta serialmente pode receber análises diversas sobre os complexos dias que vivemos. Estamos em tempos outros daqueles dos de Antonio Henrique Amaral (1935-2015) ao assinar uma das séries mais conhecidas de sua autoria. Talvez estejamos tão fragilizados quanto a figura humana algo giacomettiana que Myriam sedimenta em um tridimensional estranho. Tão inusual como os rostos e corpos a povoar outra obra escultórica que não provoca nenhuma harmonia, pelo contrário. Um incômodo presente em seus trabalhos mais gráficos, que tendem a reforçar o sentido de impessoalidade. Pelas paredes da galeria Toulouse e, em especial, nas relações que podemos criar a partir de tão diversificada produção, somos convidados a adentrar um universo em seu début (dentro dessa rede pessoal-profissional que participamos). Não nos cabe exercícios futurológicos sobre como essa obra vai seguir a posteriori, mas partilhar dessa intranquila exibição, onde o feminino, o incomum e o fragmentado constituem relevantes questionamentos, certamente multifacetados e híbridos. Mario Gioia, setembro de 2015 Mini texto divulgação da exposição Na individual Coletivos, a artista Myriam Glatt espalha pelas salas expositivas da galeria Toulouse sua produção pautada por uma repetição quase obsessiva. Exibindo novas séries de pinturas e de tridimensionais, o excesso não é um dado a ser combatido na exposição. Elementos como pedras, sementes, flores e nuvens são retratados em um movimento duplo, um a dar suas especificidades em comparação a outros motivos que estão próximos, e o outro a conferir, pelo acúmulo, uma característica serial que se sobrepõe ao particular. Numa obra que lida com as relações paradoxais e conflitantes entre o público e o privado, o seriado e o manual, o transitório e o permanente, Myriam Glatt põe em xeque pensamentos e abordagens comuns da contemporaneidade. Texto crítico e curadoria de Mario Gioia Mario Gioia Graduado pela ECA-USP (Escola de Comunicações e Artes da Universidade de São Paulo), coordena pelo quinto ano o projeto Zip'Up, na Zipper Galeria, destinado à exibição de novos artistas e projetos inéditos de curadoria. Na temporada 2014, assinou a curadoria de Decifrações (Espaço Ecco, Brasília), coletiva com Artur Barrio, Daniel Senise, Daniel Escobar, Luciana Paiva e Virgílio Neto, entre outros. Faz parte do grupo de críticos do Paço das Artes desde 2011, instituição na qual fez o acompanhamento crítico de Black Market (2012), de Paulo Almeida, e A Riscar (2011), de Daniela Seixas. É crítico convidado desde 2014 do Programa de Exposições do CCSP (Centro Cultural São Paulo) e fez, na mesma instituição, parte do grupo de críticos do Programa de Fotografia 2012/2013.




2015 - Texto conversa exposição "Coletivos" - Galeria TAC - Myriam Glatt


Tenho atelier desde os 80’ quando morei nos EUA e aprendi varias técnicas de pintura e escultura. Quando voltei para o Brasil fui trabalhar em cenografias artes aplicadas etc.. e morava na barra. Também pintava telas, fazia exposições, mas sempre fechada num grupo local. Em 2008 volto para o parque lage, agora para trabalhar para mim. Minha pintura era abstrata muito inspirada no expressionista abstrato Jackson Pollock. Não só pelo elemento que se repete por toda tela, mas tb pela relação de corpo no fazer artístico. O artista que empresta o corpo. Então pintei círculos, paralelas, risquinhos sempre numa repetição que suprimia uma hierarquia de valores dentro dela. No final de 2011 tinha produzido umas 100 telas uma media de 3 por mês, em formatos grandes herança da minha época de pintura em lonas para cenário de fotos. Dessa pesquisa abstrata, a repetição e a grade me interessou. Não uma grade de Mondrian de angulos retos mas uma grade de diagonais, a natureza é diagonal. Mas não me sentia preenchida, satisfeita. Parei meditei e pensei em pintar coisas do mundo, figuração. Olhei a volta e o meu corpo era a coisa do mundo mais proxima de mim. Então porque não auto retratos, era uma começo de algo diferente. Pintei então 4 autos retratos, eu sentada num sofá rosa, papagaios da minha infância voando no fundo e numa mesinha um montinho de sementes de girassóis; alimento dos papagaios. Essas telas já traziam várias linguagens de pintura. Nisso entra o Hugo como orientador e me incentiva a deixar crescer as sementes. Eu já havia deixado, em uma delas pintei sementes cobrindo os pés, mas aquilo parecia um formigueiro me incomodou e pintei branco apagando. Então deixo as sementes e em determinado momento sai a figura, sai Myriam, e as sementes tomam conta de todo espaço pictórico. O resultado são essas telas. Nesse ano também entrei para aula do Marcelo Campos e Brigida Baltar e lembro que eles quase me obrigaram a ficar só nas sementes e pintar 1 tela por mês. Minha produção dinâmica e experimental precisava de uma redea. Quando chegou no final de 2012, depois de 1 ano pintando só sementes, pensei: não quero falar só de sementes de girassóis, tudo bem agora tenho uma figura, mas ela não é tudo. Nisso deparo com o biólogo filosofo Ruppert Sheldrake que falava sobre a memoria dos campos morfogenéticos. Morfo em grego significa forma. Eram campos que traziam na sua forma uma memoria que fazia com que se repetissem ad infinito. Ad infinito?? Mesma forma?? Em qquer lugar do mundo? Norte sul leste oeste para dentro para fora?? Isso era as minhas sementes... Agora eu tinha um conceito, pequeno, mas era um começo, algo que eu podia me apoiar para dar continuidade a minha nova pesquisa. Ele, Sheldrake, citava então outros campos morfogenéticos, como os fractais, os cristais, os corais, as constelações, as pessoas, etc...Daí comecei a pintar pedras, nuvens, bananas, flores,estrelas, pessoas etc... Para cada elemento escolhido, eu escolhi uma linguagem atrelando o que ao como. O que pintar ao como pintar! Nesse momento volta Hugo depois de 2 anos afastado para o doutorado, olha minha produção e faz uma analogia com a historia da arte mais especificamente com a pintura. Com as sementes minha palheta de cor foi reduzida aos pretos, brancos e cinzas. Penso nos cinzas como cor de Cezanne e todas as suas duvidas. Escolhi as sementes de girassóis por causa dos papagaios da infância e tb fiquei 2 anos comendo comida viva da Ana branco onde germinava todo dia sementes principalmente as de girassóis; Quando vi o efeito 3D e o movimento que acontecia na tela, não consegui mais deixar de pintá las; fico feliz de estar dialogando com a compulsão de yayoi kusama, a semente de wei wei, e os girassóis de Van Gogh. As bananas escolhi porque tb qdo criança minha mãe dizia que eu não podia ver uma numa mercearia, ela sempre carregava 1 na bolsa, ate hj como de 1 a 2 bananas por dia; fico feliz em dialogar com o símbolo da pop arte de Andy Warhol. As nuvens quantas lonas pintei para fotógrafos acho que umas 500; me inspirei em Turner enlouquecida depois de ver sua exposição em Paris. E todas as nuvens pintadas desde a idade media.... As nuvens eram as deusas que Platão e Socrates rezavam quando iam para o pensatório pensar. Elas são o elemento que estão no limite entre a figuração e a abstração. Pode ser nuvem e pode ser mancha. Elas são maravilhosas. Não tem compromisso em ser nada tb. As flores como seria a vida sem elas.... uma mãe de um amigo falava: na sua casa pode faltar comida mas flores nunca, quando ouvi isso, resolvi dar o nome de D. Paula para a 1º tela de flor e em seguida todas elas são homenagens a mulheres que estão aqui ou já se foram. As pedras, como são estáveis fortes, densas. Quero um pouco dessa energia para mim. Obrigada figura humana vcs me deram vontade de esculpir e assumir a forma no espaço. Todo artista procura uma linguagem única para ser reconhecido e conhecido.. Isso era uma preocupação minha que eu não conseguia resolver e ainda não consegui. Mas quando assumi esse conflito como parte da minha pesquisa percebi que minha pintura também estava se questionando. Estava sendo auto reflexiva, pensando nela própria, e isso me interessou e absorvi a questão como parte da pesquisa. Daí surgiu a ideia da exposição e para mim a importância de ver todos esse trabalhos juntos. Myriam Glatt, 2015




2015/2008 - Texto trajetória - Myriam Glatt


Há algo em mim que pensa sem passar pela minha consciência. Há algo em meu pintar que pinta também sem passar pela minha consciência. Talvez Pollock tenha me influenciado na fase starter, pelo fato dele usar o corpo e fazer uma pintura desierarquizada, sem composições e em formatos grandes. Em 2008, a 1ª tela fez se círculos. Círculos pretos irregulares sobre fundo laranja por todo plano pictórico. As linhas ora pintura ora linhas tridimensionais coladas, se deixavam a mostra fora do perímetro do chassis, já uma vontade para trabalhos tridimensionais. A partir daí sofistiquei os círculos, experimentei linhas paralelas, sempre repetindo formas numa ocupação total. Em 2012 me senti esvaziada; 1ª crise! Precisava de imagens que me preenchesse, não que círculos, linhas, ou seja, a geometria não fossem imagens, queria me relacionar com imagens naturais do mundo e não imagens criadas pelo homem. Meu corpo era a coisa do mundo mais próxima de mim. Pintei então auto retratos, onde minha pessoa interagia com papagaios da infância, e numa mesinha pintei seu alimento; sementes de girassóis. Na sequencia deixei crescer as sementes por toda pintura, voltando assim a minha pesquisa de elementos repetitivos. Mas agora eram elementos naturais do mundo. Algo estava começando a me alimentar e me satisfazer. Em 2012 fiquei o ano inteiro só pintando sementes. Mas eu não queria falar de sementes, então o que fazer depois delas? Nova crise! Pesquisando no Google, deparei com um biólogo Ruppert Sheldrake que falava coisas que eu poderia linkar com minha pintura Ele falava sobre campos morfogenéticos, morfo em grego significa forma, ou seja, estruturas do reino animal, vegetal ou mineral que trazem em si uma memoria coletiva. Essa memoria faz com que esses campos sejam uma estrutura articulada e não um mero ajuntamento de partes. Em qualquer lugar do mundo bananas nascem bananas, nuvens tendem a uma horizontalidade, pedras de rios são roliças etc.. Experimentei pedras, flores, nuvens, constelações, pessoas etc. Sem me deter em uma linguagem pictórica única. Para sementes e figuras usei contorno, para flores e nuvens manchas. Essa é a questão em conflito que surge na apresentação dos trabalhos da 1ª individual Coletivos 2015; como representar a figura? Desenho ou pintura, contorno ou mancha? Com as figuras humanas senti uma vontade da tridimensionalidade, apresentando 3 esculturas em papel pintado. Myriam Glatt, 2015




2017 - Texto exposição "Flor – Da Contenção à Expansão" - ECC Niterói - Mario Gioia


Em Flor – Da Contenção à Expansão, Myriam Glatt espelha o novo momento de sua produção em duas vertentes bem claras e exploradas na museografia da mostra – uma sala para as pinturas, outra para os relevos. No entanto, para quem conhece a construção muito intuitiva da artista e o desenvolvimento não linear de seus interesses visuais/conceituais, a leitura mais aproximada de tais recortes podem gerar debates interessantes.

Para mim, inicialmente, foi saboroso ver as incursões pictóricas de Glatt nesse novo conjunto. Se anteriormente a tinta era vistosa em séries na qual a paleta da artista se debruçava repetitivamente sobre elementos, como as nuvens, e, em outro recorte, o lado gráfico de suas pinceladas ficara mais evidente, como nas obras em que retrata pedras, agora a artista opta primordialmente pela acrílica e extrai mais da planaridade típica ostentada pelo material. E, assim, alguns fundos seduzem a retina sobremaneira, como o verde de Isis, o azul de Ágata, o escarlate de Amanda.

Mas o que estrutura a série e faz um link adequado com o que está contido na outra sala é a ambivalente, cumulativa e estranha figura, em termos formais, que sempre ‘estrela’ a composição. São as flores que surgem, se sobrepõem, ocultam, explicitam e geram uma instabilidade de linhas, volumes, projeções e cromatismos a predominar no conjunto.

No ambiente dos relevos, novamente se fazem destacadas as configurações de maior tamanho – Composição, de 2,30 m x 4,60 m, em especial. Nesta, a fusão e o emprego das cores nessa massa construída, entre o bidimensional e o tridimensional, o pictórico e o escultórico, entre outros vetores de leitura, centram o nosso interesse.

Há outra peça interessante para discussão da nova fase (e não presente na individual). Em Buquet Dionísio Tropical, de 1,40 m x 1,80 m, são os rastros, os vestígios do processo de construção da peça que chamam a atenção. Pois as inscrições ‘originais’ de onde o papelão foi empregado antes, por meio das localizações industriais da empresa que comercializava o produto e de inscrições em símbolos dos cuidados com a mercadoria, parecem evidenciar o mundo e a vida real dentro do agora exibido no mundo da arte e encapsulado num cubo branco. Não se pode minimizar também a importância do universo do consumo e de novas relações mercantilizadas a influenciar postulados de movimentos vanguardistas nas artes plásticas, desde os do início do século 20, passando pela pop art sessentista, também do século passado – e hoje poderíamos averiguar os elos trazidos pela virtualidade e pela hipercirculação de tudo o que podemos imaginar, mas isso mereceria comentários mais aprofundados. Na mostra de agora, o relevo Making of pode ser abordado similarmente.

“Caminhando pela cidade, uma vontade de experimentar novos suportes estende meu ateliê para o campo urbano. Os papelões descartados nas calçadas no dia de coleta reciclável me chamam a atenção”, conta a artista sobre a nova faceta de labor. O comentário faz com que possamos acrescentar um novo dado na poética de Glatt. A deriva urbana, uma política do precário e uma imbricada relação com o cotidiano se descortinam sobre a obra da artista. Ela utiliza o termo “antropofagia” para explicar tal interesse, que a conecta com parte bem significativa da arte nacional, porém essa invasão de suportes, escalas e linguagens sempre esteve presente em seus procedimentos e práticas. Se o binômio arte e vida tinha como ápice em seus projetos a planta germinada durante a vigência da exposição Semente, hoje Glatt escolhe caminhos menos ‘biológicos’ para investigar e expor suas inquietações.

São esses resultados que trazem à tona uma arqueologia do mínimo, a evidenciar e dar novas luzes, cores e formas ao que era só basura, traçando elos profícuos com o que ela já construiu no âmbito de um projeto pictórico próprio. Nesse ponto, um exemplo feliz é Abacaxi, relevo de 1,60 m x 1,60 m em verde vivaz que, com síntese e mais contenção que expansão, cruza boas referências das diversas fases de Glatt. Portanto, também a retratar com incômodo um mundo de fluxos, trocas, intercâmbios e relações longe de serem apenas positivos, Myriam Glatt contribui visualmente para traduzir visualmente nossas perplexidades e embates com o hoje.

Mario Gioia




2013 - Texto sobre - Myriam Glatt


Sobre meu trabalho

Pesquiso campos morfogenéticos, morfo em grego significa forma; são campos de forma,

padrões ou estruturas de ordem do reino animal, vegetal ou mineral que trazem em si uma

memoria coletiva;

Essa memoria faz com que esses campos sejam uma estrutura articulada e não um mero

ajuntamento de partes.

Escolhi para minha pesquisa sementes de girassol, estrelas, pássaros, pedras, nuvens e

mariposas, por elas formarem no agrupamento uma grade geométrica e orgânica,

tocando quase numa abstração.

Coisas começam a acontecer no interior da tela, ora um olhar que penetra num espaço que não

se limita ao plano pictórico ora as figuras parecem querer sair da tela.

Me interesso por esse movimento, e intensifico com luz e sombra.

Não me interessa os 90º de Mondrian, quero as diagonais da natureza, quero o acaso de

Pollock. Quero olhar para folha que cai, não sei quando, mas sei que vai cair.

Onde estou? Estou aqui e ali.

Onde você está? Está em todo lugar.

Somos iguais,

Estamos juntos.

Proponho novos campos num mundo possível, dentro do reino da Arte.

Myriam Glatt




2017 - Texto exposição "descartes" - Centro Cultural Correios RJ - Keyna Eleison


Faço, logo existo.

Para o Centro Cultural dos Correios, Myriam Glatt expõe obras que transcorrem um universo originado a partir do encontro não planejado com um material: o papelão. Foram caixas de papelão vistas pelas ruas que acenderam a potência do que será visto: Colagens, pinturas, desenhos, fotos e vídeo.

Nas colagens ou relevos, peças de papelão se prestam ao papel de suporte e são objeto. As cores e os formatos são absorvidos e colocados em uma ordem que não se propõe harmônica e sim habitam o mundo do jeito que deveriam ser.

O tempo, sempre se quis domar, e na repetição dos trabalhos com jornal parece que ele não passa, permanece. Notícias de um periódico e suas informações do caderno de artes são arte? O que revela? o que releva?

Se são notícias de arte, são arte ou serão suporte para a mesma? Cada trabalho da série a mesma rosa. Não se pode parar o tempo com a mão mas se pode colocar em momentos distintos o mesmo desabrochar.

Nos seus quadros, o retorno a si mesma: a pintora. A tinta na tela faz o sentido, é possível ver sua auto influência, se apropriando dos contornos das colagens ao se colocar na frente da tela. A Natureza, explosiva e latente percorre nossos olhos através de seu movimento, as pinturas saem da tela e voltam a ser objeto sem tentar a tridimensionalidade, Myriam já nos ensinou a olhar.

Em suas fotografias e no vídeo o caixote de papelão é o protagonista, mesmo sendo ele o intruso na paisagem.

Myriam dá ao material uma transcendência necessária. O material pode chegar a qualquer ponto; a artista decide o que é tela, o que é tinta, o que é modelo e o que é obra.

E ela não se esgota, e ele não se esgota. A artista segue a fazer, cortando, colando, pintando,fotografando, filmando e a cada repetição surge algo novo do mesmo.

A exposição se chama descartes, não pela influência do filósofo René, com o seu famigerado “penso, logo existo” que em nada orbita no cerne do fazer ou do pensar da obra de Myriam Glatt. Se em Descartes a mente está totalmente separada do corpo, com a artista já temos o alcance que somos polisegmentados e um só.

Sua arte não se fixa, está em constante mudança, se dá ao luxo de testar e não se coloca em desafios óbvios. Na exposição pode-se fruir de temas que ela mesma se coloca: repetição, apropriação, natureza e tempo. Seu trabalho é constante e rizomático, rizoma este que tem o mesmo início, o fazer artístico de Myriam, e não sabemos para onde sua obra pode seguir.

Keyna Eleison

crítica curatorial




2017 - Texto exposição "Flor, da contenção à expansão" - ECC Niterói - Isabel Sanson Portella


FLOR, DA CONTENÇÃO À EXPANSÃO Um poeta deve deixar traços de sua passagem, não provas. Somente os traços fazem sonhar. René Char Ao pensar sobre os trabalhos de Myriam Glatt procurei fazê-lo a partir de limites mais amplos. Não apenas a explosão de cores, mas também os suportes utilizados expressam seus vínculos com a experiência social de nossos dias. Ao sair de seu ateliê à procura de elementos descartados para sustentar suas obras, a artista encontra, no campo urbano, elementos para expandir sua poética. Passa a refletir sobre construção, desconstrução, acumulação, o novo e o usado. O olhar se detém nas insignificâncias e se perde na transformação. As formas vão surgindo onde as tintas se fixam. Os recortes se sobrepõem criando relevos e deixando que as texturas do papelão despertem os sentidos. E Myriam pensa: “eu reciclo, faço a minha parte”. Mais do que fazer a sua parte a artista revela em suas obras a matéria invisível, a pele confeccionada para envolver e embalar outros produtos. E é dessa pele abandonada que vão surgindo pétalas e folhas e camadas de cores que brotam da imaginação da artista. Existe em tudo um movimento misterioso que faz aparecer e desaparecer, que revela e esconde nas cores exuberantes a base primordial. É também dessa tensão que emerge a pintura/escultura de Myriam. Um fluxo que precisa explodir, jorrar, romper a pele que se quer porosa e frágil para reaparecer em outra obra, igualmente repleta de curvas e cores, de recortes e relevos. As sementes, tema recorrente na trajetória de Myriam Glatt, deram origem a essa série, Flores. Sementes, que submersas por um tempo gestacional rompem a terra/pele à procura da vida. Flores, que ocultam perfumes e néctares, que guardam a beleza e a harmonia. Sua sensualidade ao mesmo tempo envolve e repele, convida e expulsa. Assim é a arte de Myriam, abrindo rasgos na pele do mundo para que algo brote das sementes internas. Permitindo que floresçam como novos conceitos, novas imagens. Flores sempre estiveram ligadas a simbolismos diversos. Inspiração para poetas e artistas, ornamentos para o prazer dos deuses, signo de tudo que era nobre e precioso. Muitas vezes a flor apresenta-se como figura-arquétipo da alma, como centro espiritual. Nossos sentidos são capacitados a apreender o mundo em suas formas para, em seguida, projetar sobre elas as representações de que dispomos a fim de lhes atribuir sentido. Nosso repertório interno vai modificar o que o olhar nos apresenta. A história que contamos pela vida vai transformar a imagem, mostrando a ação do tempo, dos sujeitos que nos cercam, da percepção que cada um tem do universo. Em Flor, da contenção à expansão, Myriam Glatt expõe 18 obras que apresentam o seu olhar vibrante sobre um jardim muito especial. Cada pétala conta da sua energia, da força de seus traços que tudo envolvem com extrema delicadeza. Porque, como diz o poeta, “somente os traços fazem sonhar”. Curadoria Isabel Sanson Portella




2018 - Texto exposição "O intruso na cachoeira" - Galeria Transparente RJ - Frederico Dalton


Sobre o trabalho de Myriam Glatt
para a Galeria Transparente

Ao atravessar o retângulo da Galeria Transparente, o rio da instalação de Myriam Glatt intitulada "O intruso na cachoeira" transporta uma embalagem de papelão a novos campos de significados.

A caixa deixa de ser o material sobre o qual a artista usualmente executa suas pinturas, e passa a sugerir histórias. Afluentes inesperados reinventam o que nos é proposto pela artista. E o “intruso” passa a ser o espectador com sua imaginação bem irrigada.

A coincidência fez com que a artista tenha encontrado uma caixa com a palavra "caçula". Então, em alguma curva do rio poderemos imaginar que dentro dela existirá um bebê. Numa curva seguinte este bebê talvez se transforme em Moisés. E na próxima ele será resgatado das águas. Mas esta é apenas uma das viagens possíveis.

Vivemos em tempos desafiadores onde fluxos cada vez mais rápidos e complexos nos surpreendem com caixas misteriosas. Há quem espere que elas contenham um salvador. Outros suspeitam que elas escondam o ovo de uma terrível serpente.

Mas o fluir dos rios nos lembra de que tudo passa. Seu frescor talvez nos fortaleça para os novos desafios. Recuso-me a acreditar que viver signifique apenas ser carregado pela implacável corrente da História. Se sou capaz de reinventar rios com minha criatividade, acredito que ela também possa me salvar das águas que me levem para onde não quero ir.

Frederico Dalton, novembro de 2018




2012 - Texto Marcelo Campos


O bairro era Botafogo, tanto o da moradia quanto o do comércio. A história era a de João Romão, antes empregado de um vendeiro, depois dono da venda, explorador, vitima, sedutor, herdeiro da taverna e de tudo que estava dentro. Ali exercera o sonho do imigrante, a tara do brasileiro. Ganancioso e labutador, dormia sobre o balcão da própria venda, economizando para enriquecer.

A exposição que apresentamos parte de discussões fomentadas no curso de portfólio, na Escola de Artes Visuais do Parque Lage. Ali, a ideia primeira foi trabalhar com o “naturalismo”, gênero literário inaugurado pelo romance de Aluísio de Azevedo.

Para a arte contemporânea, ativar o naturalismo é deixar o trabalho freqüentar um limiar ousado entre arte e utilidade, imagem e invisibilidade, obra de arte e meras coisas reais. Portanto, lidamos com a casa de João Romão, aquele que para enriquecer explorava os moradores de um cortiço.

Tudo era coletivizado e a exposição procurou manter esta proximidade das obras. Dali, dos becos desumanos, da higienização precária, a brasilidade se construía, no samba de roda, na profissionalização de ex-escravos, na malandragem carioca, na mulata exportação, na utopia imigratória. A cultura miscigenada do dia-a-dia muito além da fábula das três raças.

Curiosamente, este lugar de moradia funciona, hoje, como memória urbana e civilizatória para os subúrbios, para as favelas, para os condomínios. O escritor conseguira mostrar que a intensa proximidade de corpos, no lugar de morada, gerava as mais subversivas atitudes: o crime, a traição amorosa, a fofoca no tanque de roupas.

E assim os dias passam, nas fotografias de família, no escape dos ralos, nas fantasias de carnaval, no pó dos dias, na roupa estendida no varal, no gato de luz, nos despachos afro-brasileiros, nos tijolos, britas, portas e escadas da construção precária, nos bordados dos afetos que podem (re)costurar o romance, fazendo-o retornar a Botafogo. Hospedamos, aqui, todos esses personagens e ambientes numa outra casa vizinha.

Marcelo Campos




2020 - Texto exposição "Arquiteturas Instáveis" - Galeria M. L. Mendes de Almeida - Paulo Sergio Duarte


Arquiteturas Instáveis Sem briga com as cores

Tudo é resto. Placas de papelão de embalagens descartáveis. Tudo desprezível pela sociedade de consumo que lança ao lixo diariamente toneladas desse material. Myriam Glatt não esconde isso, nas bordas de cada trabalho está exposto, não falsifica um “acabamento” para mascarar a origem. Evita qualquer maquiagem sucessora do design. E transforma o desperdício em acontecimento plástico. Insisto, embora haja uma dimensão política muito forte nas escolhas dos materiais, o que se evidencia na mostra é a questão artística. É importante ressaltar esse aspecto porque a arte contemporânea com muita frequência deixa a dimensão política eclipsar completamente a força artística, esta se torna débil,

É ver, sobretudo, que as opções cromáticas da artista são variações no sentido musical do termo. Mas, para isso que foi dito é preciso lembrar: variação na música implica na repetição do mesmo material de uma forma alterada, na harmonia, na melodia, no ritmo. É exatamente isso que encontramos no trabalho de Myriam Glatt.

Há, nos detalhes dos cortes dos papelões, a presença da origem. De onde nós viemos: do lixo. Mas, no conjunto, não briga com as cores, prefere expô-las sem dissonâncias, são passagens. A grande “Mandala” que ocupa o chão força essa evidência, a começar pela sua escala, sua dimensão a torna um instrumento muito forte, é o órgão nessa orquestra de vários instrumentos. As mutações do branco, amarelo, rosa, laranja dominam a galeria. Mas vejamos as variações dos brancos e algumas cores sobre a parede: as AbaMóveis. Algumas são coloridas. Mais que isso, são dobras que se evidenciam e a artista quer que as pessoas as manipulem, as modifiquem, mexam nelas. Dir-se-á: a “velha interação”, é isso, mas não é só isso. Cada dobra impõe seus próprios limites. Nessas sutis variações os trabalhos nunca serão os mesmos. E se tivermos algum deles perto de nós vamos ser muito gratificados. Vejam o tamanho, é muito delicado aquele de cada parte, um pequeno pedaço. E não nos esqueçamos que essa geometria é herdeira de um elevado momento da constituição da arte moderna no Brasil: o construtivismo. Toda essa lógica do passado está transportada para o presente de uma forma absolutamente contemporânea.

Lembrem do que foi dito no início: tudo feito sobre suportes para serem jogados fora. E Myriam Glatt transforma-os em obras de arte.

Paulo Sergio Duarte
Rio de Janeiro, fevereiro 2020




2018 - Texto exposição "descartes" - Centro Cultural Correios SP - Mario Gioia


Multitudes

Descartes, primeira individual de Myriam Glatt na capital paulista, traz dois movimentos relevantes para quem acompanha tal produção. O primeiro, bastante claro, é a ancoragem da sua visualidade sob a guarda de um discurso ecológico, importante e não demagógico, que vem desdobrando-se faz alguns anos e que hoje parece encontrar escalas, tipologias e discussões mais compatíveis. O outro vetor está mais ligado a como a artista lida com o feminino e algumas noções que podem ser elencadas - abrigo, organicidade e fazer intuitivo, entre outras -, agora trabalhadas num escopo mais aprofundado e detido (mas sem deixar de ser ambicioso).

A trilha percorrida pela artista carioca que se liga à sustentabilidade e a outros conceitos hoje ‘quentes’ pode ser lida como um impulso movente na trajetória de diversos artistas. Como Bourriaud bem discorre em seu central Radicante, a deriva urbana, a política do precário e os elos indissociáveis com o cotidiano são molas motrizes nas poéticas de muitos nomes. Hoje, tal vereda parece ainda mais fazer sentido com os desdobramentos que conceitos da ecologia vêm resultando nos tempos atuais, desenhados firmemente como tenebrosos – talvez como nunca foram. Aquecimento global, mudança de temperatura, buraco na camada de ozônio, crises d’água, explosão do lixo etc, são todos elementos reais e concretos vividos nas gigantescas metrópoles do século 21 (e as urbes dos países em desenvolvimento obviamente sofrem mais).

“(…) Mas a ideia de uma deflação de expectativas não se restringe ao aquecimento global. (…) Os biólogos dizem que estamos diante da chamada Sexta Extinção, resultado de uma população crescente de seres humanos, cada vez mais exigente de recursos, cada vez mais dotada de poder pela tecnologia. E a ascensão do termo ‘antropoceno’, empregado para descrever a época que começou quando as atividades humanas produziram um impacto global significativo sobre os ecossistemas do planeta, alcança um clímax em várias disciplinas” (1), argumenta o alemão Jochen Volz, que assinou a curadoria principal de Incerteza Viva, a 32ª Bienal de São Paulo (2016), exposição que ganha cada vez mais atualidade e pungência.

Configurações dessa espécie são importantes, mas nada adiantariam se Myriam não fosse arrojada em seu caminhar. Se em sua primeira individual, Coletivos (2015), ela ainda era tributária de uma ‘boa pintura’ (interessante, em especial por suas releituras seriadas de motivos de história da arte como as nuvens e as pedras), hoje Descartes é constituída de um tratamento pictórico diferente do inicial. Em telas como Anastácia e Sofia, a carioca é hábil em construir um tema banal, no entanto esculpindo com tinta, luz, cor, volume e sombra motivos que nos vêm a remeter à complexidade do feminino. Entre o desabrochar e o retrair-se, a expansão e a contenção, o flexível e o rijo, a artista continua a renovar tradições da história da arte e a gravar inquietudes contemporâneas nesse corpus.

O deambular de Myriam se revigora num tipo de pintura do mundo, em que o tridimensional/escultórico se mescla ao bidimensional/pictórico baseando os relevos que apuradamente realiza. Nesse campo ampliado, obras como Making Of se destacam, por conta da escala não discreta, do uso seco do suporte e do espírito de colagem (também podemos enxergar o desenho e até a performance na peça). Séries como Periódicos e Lux utilizam elementos comuns em variadas correntes artísticas (o jornal na primeira; o objeto do dia-a-dia na segunda) para discutir tempo, entropia, redes de proteção etc em trabalhos que guardam definições movediças – algo entre a pintura, o objeto, a colagem e a instalação, entre outros meios.

Remetendo a antecedentes-chave na relação arte e consumo, vêm pensamentos de nomes como Eduardo Paolozzi (1924-2005), um dos expoentes do pop, já em 1959: “Procuro ressaltar tudo o que é maravilhoso ou ambíguo nos objetos mais comuns, nos objetos que quase sempre ninguém para a fim de olhar ou admirar. Além disso, tento submeter tais objetos, que são o material básico de minha escultura, a mais de uma metamorfose”. (2) E, nas palavras da artista de hoje: “Ao me deparar com o excesso de papelões descartados pela cidade, vi neles um potente suporte para minhas pinturas, satisfazendo uma vontade que há muito me acompanhava: experimentar novos meios”, diz Myriam. “Nessa ação, o suporte se amalgama à pintura e cria um só corpo.” (3)

Para o Centro Cultural Correios, portanto, Myriam Glatt abraça a efervescência da região central da megalópole e, dotada de ferramentas e procedimentos da contemporaneidade, alinhava visualidades não calmas, assentada nos fragmentos, nos fluxos dinâmicos e nas singularidades. Entramos no domínio do inquieto, e talvez o incerto seja, agora, condição essencial.

Mario Gioia, março de 2018

(1) VOLZ, Jochen e REBOUÇAS, Julia (org.). Incerteza Viva – 32a Bienal de São Paulo. São Paulo, Fundação Bienal de São Paulo, 2016, p. 22 (2) CHIPP, H.B. Teorias da Arte Moderna. Martins Fontes, São Paulo, 1993, p. 628-29. (3) Entrevista da artista ao autor por e-mail, fevereiro de 2018.




2019 - Texto exposição "Pardes" - Hebraica SP - Olívio Guedes


Pardes / Myriam Glatt

Pardes... PaRDeS(פרדס)... Acróstico...

Pshat (פשט)Remez (רמז)Drash (דרש)Sod (סוֹד)

O Pomar da Vida...Anima da existência... Entusiasmo...

Acontecimentos relevam a existência, nos dá o tecido da história; subsistência do sustento de uma geometria sagrada; as derivações do sentido figurado no conjunto de atividades caracterizam o ‘lugar fértil’ que, descreve quatro diferentes abordagens da exegese: a simples análise, a sugestiva exposição, a demanda comparada e oculto inspirador.

A tradição nos mostra o novo caminho a seguir; as escolas nos apresentam interrupções, digressões e assim: novos suportes para deslocar nossa ‘pintura da vida’.

O Receber nos leva ao Reino da Arte, onde cada responsa nos encaminha a quatro organismos, onde nós nos apropriamos de nós mesmos. A cada interpretação, a condição da existência, nos mostra a senda através da metáfora que se realizará e romperá os grilhões.

O cortar-e-colar de Myriam nos eleva ao ato de consideração ao paraíso do compartilhar, da sabedoria através do conhecimento que habita na compreensão. Ao passear neste jardim entramos na morada do absurdo onde está nossa mente, assim, indo no caminho dos abençoados.

O revelar, vindo das inspirações, transmite a validação da aplicação de um estado de mutação, que, apresenta o profético incorporado da revelação do caminho. O método para esta teologia pede beleza, porém, declarações na aceitação existencialista, apresentando a luz para o encontro da obra-prima onde os pontos de vista não mais divergem, mas sim: convergem; as expansões do fenômeno da espiritualidade dentro das cores e das formas nos trazem uma interpretação real da mística humanidade.

Dentro deste estado de fruidez e fluidez, a alegoria se expressa na pureza nos níveis de interoperações, assim, as realidades mais profundas nos levam as alusões de sutilezas de uma elegância do profetizar!

Olívio Guedes, curador, março 2019




2019 - Texto exposição "Plano Pictórico Piloto" - Museu Correios DF - Ivair Reinaldim


Plano Pictórico Piloto / Myriam Glatt

Plano piloto é um termo que ficou amplamente conhecido, a partir do plano preliminar urbanístico apresentadopor Lucio Costa, em 1957, para a nova capital brasileira. No ano seguinte, Augusto e Haroldo de Campos, junto a Décio Pignatari, publicam Plano piloto para poesia concreta, reforçando não só a recorrência do termo, como também a de seu sentido. Essa espécie de consonância entre as vanguardas nos anos 1950 contribuiu para que, duas décadas mais tarde, a noção “projeto construtivo brasileiro na arte” adquirisse representatividade na historiografia.

Seja na arquitetura ou no urbanismo, na poesia ou nas artes plásticas, um ideário comum, cujas origens remontam às vanguardas europeias, passava a embasar tanto o modo como cada uma dessas “linguagens” se estruturava, quanto sua capacidade projetiva de conceber novas formas sociais para o futuro. Publicações como Ponto, linha sobre plano (1926), de Wassily Kandinsky, apresentavam análise minuciosa das bases visuais da representação, essencial para as artes plásticas e igualmente para suas áreas adjacentes, como o design de produto e a comunicação visual. Essa “sintaxe”, aliada a uma “gramática”, não se limitava à abstração geométrica, constituindo um sistema de estruturação da superfície e do espaço, presente até mesmo sob as aparências da arte figurativa naturalista.

Desse modo, formas de expressão das artes plásticas, da arquitetura, urbanismo e design em geral,no contexto das sociedades industriais, promoviam novos modos de vida, alterando hábitos de convivência social e usos de objetos (mobiliário, indumentária, imagens da publicidade, ambientes arquitetônicos, paisagismo, etc.). Independentemente de seus desdobramentos posteriores, fato é que muitas dessas concepções, mesmo que distorcidas, obliteradas ou fragmentadas, podem ainda ser localizadas, aqui ou acolá, seja por persistência, seja pelo reconhecimentode obras e projetos exaltados à ordem de patrimônio artístico e cultural.

Entretanto, as sociedades fundamentadas nessa lógica moderna, produtorasde objetos em larga escala, transformados em mercadoria e identificados ora como a última novidade, ora como algo defasado e inútil, são as mesmas que descartam diariamente grande quantidade de materiais e artigos. O motor capitalista exige a alta rotatividade de consumo, alterando rapidamente os valores atribuídos a seus produtos, por meio de processos de fetichização e desqualificação. Ao observarmos o grande volume de material descartado por essas sociedades – embalagens em geral, papelão, isopor, jornal, sacolas plásticas, etc. –, constatamos a potencial (e nociva) forma de alteraçãoda paisagem,que nem sempre esteve prevista nesses projetos.

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A artista Myriam Glatt tem se dedicado a processos de “expansão” de sua pintura, a partir da ressignificação de suportes identificados pela perda de valor e descarte, logo após seu uso ou cumprimento de sua função imediata (proteger, acomodar, informar, vender, etc.). Trabalhando essencialmente com papelão, mas também com páginas de jornais e caixas de fósforo, tem redefinido o lugar de sua produção pictórica, seja pelas propriedades do novo suporte, por seu caráter residual e amplamente acessível, seja pelo interesse na passagem do plano ao espaço, procedimento favorecido pela estrutura que esses materiais costumam apresentar.

Duas questões, pelo menos, surgem aqui, de modo mais evidente. De um lado, a experiência pessoal com a pintura, visto que a artista vem se dedicando a essa linguagem há algum tempo. É fato que sua pesquisa atual advém de um desdobramento inerente aos processos plásticos e a indagações a eles relacionadas, ou seja, não se trata de uma novidade, compreendendo um estágio de uma investigação mais ampla. Por outro, um diálogo inevitável com a propalada noção de sustentabilidade, que proporciona novo olhar para a ecologia (não limitando seu sentido ao senso comum depreservação da natureza), ao trazer para primeiro plano o papel que o ser humano tem na manutenção da vida no planeta, incluindo a si mesmo e a seus semelhantes nessa tarefa.

Em suma, para a artista, interessa propor novos sentidos para esses suportes descartados, rearticulá-los e reintroduzi-los no sistema simbólico dos objetos, mas também dar continuidade a investigações próprias da pintura, como a relação modular entre a forma simples e sua repetição, o gesto evidente na pincelada e a impregnação dos campos de cor, a dinâmica entre a superfície da pintura e sua espacialização, transformando-se em objeto artístico. Esse último aspecto, em particular, remonta a investigações plásticas e conceituais de alguns artistas brasileiros, entre os anos 1950 e 1960, na fusão entre pintura e escultura, para criar uma nova categoria (objeto), caracterizando no Rio de Janeiro, cidade natal da artista, a passagem do concretismo para o neoconcretismo.

Todos esses aspectos ganham nova dimensão neste momento, a partir do encontro de Myriam Glatt com a paisagem e a história brasilienses, ao observar seus elementos estruturais e imagéticos característicos e as narrativas que se referem a sua construção e desenvolvimento. Nos últimos meses, seguindo orientação específica, a artista desenvolveu extensa pesquisa, experimentando novas possibilidades de articulação dos materiais e de direções para sua investigação. Desse encontro nasce o projeto Plano Pictórico Piloto.

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Esta exposição se organiza por meio de três núcleos principais, cada qual relacionando um conjunto de trabalhos com algumas questões de Brasília. No primeiro núcleo são apresentadas Composição Floral 6 e 4 Estações, obras anteriores, já exibidas no Rio de Janeiro e em São Paulo, que fazem referência tanto ao interesse de Myriam Glatt pela condição estrutural do módulo que se repete, formando um conjunto maior, quanto pelo caráter cíclico da natureza. Esses trabalhos, neste contexto expositivo,aludem à monumentalidade da paisagem do cerrado e ao orgânico como forte presença frente ao geométrico, elementos que não se excluem, mas se complementam.

Na sequência, o segundo núcleo reúne Autofagias, Periódicos, Entre Abas e Escultura ZigZag, reforçando a passagem de pesquisas anteriores da artista para a presença de novos trabalhos, realizados especialmente para a mostra. Em todos eles, a ressignificação do suporte (tela, páginas de jornal e papelão), ora explicita o resgate daquilo que outrora havia perdido sua utilidade, passando a ter seu valor transformado, ora evidencia a possibilidade de reestruturação do fragmento por meio do ato pictórico, dando nova visibilidade a esses materiais, seja pelainserção da geometria sejapela predominância das áreas de cor.Surge, nesse processo,o desejo de participação do espectador, uma vez que alguns desses trabalhos permitem a alteração de suas formas.

No terceiro e último núcleo temos Aba Móvel, Geometria Móvel, Mandala e o trabalho que particularmente dialoga com o local da exposição. Aqui percebemos uma continuidade em relação às questões anteriores, reforçando-se a ênfase sobre a participação do espectador. Em alguns momentos, isso ocorre na alteração da configuração espacial do trabalho por meio da manipulação direta do espectador; em outros, pela presença integral de seu corpo, que se coloca em relação à proposição artística como um todo. Parte desse módulo destaca o diálogo da pintura sobre papelão com as cores e o ambiente arquitetônico.

A mostra culmina no interesse da artista sobre certo aspecto particular de Brasília: os azulejos modernistas de Athos Bulcão. A partir da modulação, detalhes de imagens que fazem referência a formas geométricas e orgânicas reconhecidas na arquitetura, na escultura, na fauna e na flora da capital federal, combinam-se de diferentes modos, apontando para uma diversidade de arranjos e para novos caminhos a serem explorados nesse processo. O painel de azulejos reitera a pesquisa da artista sobre a relação entre o módulo e sua repetição, assim como sobre a espacialização da pintura, na sua relação íntima com a parede como elemento arquitetônico: nasce Painel Brasília.

Nesse conjunto de trabalhos, Myriam Glatt não pretende ironizar nem sacralizar as ideias e questões que utiliza como referência. Elas aparecem a partir de certo rigor, mas também com igual senso de liberdade, sem dogmatismo ou aleatoriedade. Claro que hoje podemos olhar com alguma desconfiança para uma visão de mundo que embasou muitas das criações e ideologias dos anos 1950; mas, mais que isso, o objetivo da artista aqui é propor um diálogo entre passado e um olhar constantemente renovado sobre o agora, sem pretender definir um projeto de futuro específico.

Ivair Reinaldim, curador, 2019